Não é uma competição por esse ou aquele espaço, é tudo em função da inteligência artificial

Há algum tempo o Google lançou o serviço Local Guides e, sem muito esforço, começou a competir diretamente com o TripAdvisor, Yelp e outros. Para quem já usa o Google Maps (que não usa?), trata-se de um passo natural porque praticamente todos os locais que procuramos já estão catalogados lá dentro.

O que o Google está fazendo agora é polir seu mapa com o conteúdo do Local Guides (e de outras fontes, é claro). Para isso, convidou usuários comuns para alimentar o sistema com informações mais detalhadas. Além das estrelas e comentários, é possível responder perguntas sobre estabelecimentos, incluir endereços, página web, telefone etc. E cada ação dessas gera pontos que são convertidos em prêmios.

Outra iniciativa nessa mesma direção foi o lançamento do Trips, que ao estilo Google, varre informações dentro do seu Gmail e outras partes para construir um roteiro automático da sua próxima viagem. Instalei e notei que ele já criou alguns roteiros para mim, mas ainda não cheguei a experimentar.

Até então eu vinha enxergando essa e outras ações como competições diretas, mas, pensando bem, não parece ser o caso. Depois da apresentação Made by Google ficou tudo muito claro para mim. A empresa está, em realidade, migrando da busca simples para um assistente que, naturalmente, já é “mais inteligente” que a concorrência em razão de tudo que o Google sabe a nosso respeito.

+ Tudo que foi anunciado na Made by Google em menos de 10 min

Pense sobre o Trips e o Local Guides por um minuto. A empresa já conhecia nosso perfil de deslocamento com base nos dados do Maps e agora saberão que estabelecimentos gostamos mais e qual nosso estilo de viagens.

O assistente ainda está nascendo, mas já faz coisas incríveis. E você não precisa do Google Home para experimentar. Instale o Allo e comece a conversar com o Google, mas por ora, apenas em inglês. Algumas respostas ainda são hilárias, mas o enorme potencial aparece quando o conjunto todo funciona.

Pedi para ele me mostrar restaurantes por perto e o App solicitou autorização para ver minha localização. Concedido! O assistente começou a me perguntar que tipo de comida eu gosto e já listou algumas opções de cozinhas. Fui marcando algumas e escrevi outras que não apareciam nas sugestões.

Mas quando resolvi testar o nível de inteligência com a frase “Gosto de hamburger, mas minha esposa é vegetariana”, a coisa ficou complicada demais e a resposta foi: “Hmmm, não entendi muito bem. Que tipo de comida você gosta?”. Outro momento hilário foi perguntar “O que fazer hoje a noite?” e ouvir “Eu gosto de passar meu tempo indexando a web”.

Voltando ao papo do restaurante, incluí uns 4 ou 5 tipos preferidos de cozinha e recebi vários cartões do Google Maps com fotos, estrelas e outras informações. De onde vem tudo isso? Acertou! Local Guides. O detalhe interessante dessa busca foi ver logo abaixo da tela de resultados o botão “ver no mapa”. Pressionei e o Google Maps abriu só com a relação dos restaurantes do Allo, mas com tudo apontado no mapa.

Isso é apenas o começo, mas já podemos refletir sobre consequências futuras. Experimente ir até a loja online do Google ou Apple em busca de aplicativos que mostram a previsão metereológica e verá uma enorme quantidade deles aparecendo. São tantos e tão variados que fica difícil escolher o melhor.

Mas a pergunta que fica é: quantos anos você acha que esse tipo de aplicativo sobreviverá? A tendência natural é passarmos a usar apenas a Siri, o Ok Google e outros para conseguir essa informação instantaneamente. E acredito que é bastante razoável aplicarmos o mesmo raciocínio ao TripAdvisor e Yelp, porém considerando um intervalo de tempo muito mais longo.

Portanto, se você é um desenvolvedor e está pensando em criar um App, fica a dica: reflita um pouco sobre Inteligência Artificial e assistentes antes de investir tempo e dinheiro em uma ideia.

O diabo, como dizem, está nos detalhes e o Google parece ter entendido e aplicado isso melhor do que ninguém. Assim como acredito que não estão competindo diretamente com os serviços TripAdvisor e Yelp, penso que os equipamentos da Apple não são o alvo da iniciativa Made by Google. Ao lançar um telefone, roteadores Wi-Fi, Google Home e um novo Chromecast, o Google está, em realidade, criando condições para polir ainda mais o assistente e enquanto faz isso, vai automaticamente atacando e destruindo algumas ideias e iniciativas pelo caminho.

O Facebook segue a mesma balada do Google. Aplicativos para mensagem, calendário e outros estão, em realidade capturando nossas informações, mas, parando para pensar com carinho no assunto, fica bem claro que —ainda!— não chegam aos pés do que o Google sabe e tem feito. O Facebook não tem a sua disposição a gigantesca base de conhecimento global (Web) indexada em seus servidores e, apesar de saber muito sobre nossos gostos e ações online, quando comparado ao Google, tem apenas uma vaga ideia dos nossos passos e ações no mundo real.

E correndo por fora estão empresas como a Jelly que tiram proveito da arquitetura mais aberta do Echo da Amazon e do próprio Google Home que permitem integrações desse tipo. Você já pode, por exemplo, fazer perguntas específicas para o Jelly usando a expressão "ask Jelly" conversando com o Echo ou via #askjelly no Twitter. Em breve estará também no Google Home, mas será que um dia algo assim chegará a Siri?

Entendeu o resumo da história? A computação no futuro será onipresente e o dispositivo importará muito pouco. Se a Apple não parar de focar apenas no mais belo design do planeta e acelerar os passos em inteligência artificial e, o mais importante, passar a enxergar que existe um universo inteiro fora do seu próprio eco-sistema, será engolida por aqueles que estão começando a construir esse futuro agora. Anote aí, o futuro é sobre inteligência artificial. Vencerá aquele que entender que todo o resto é acessório para atingir esse objetivo.