Apple, Google e o continente africano

Ainda não terminei de assistir o vídeo da Google I/O 2015, mas preciso comentar esse artigo publicado no appleinsider. Apesar de ser um site dedicado à Apple, os pontos discutidos me pareceram muito interessantes.

Logo no início, o texto destaca o Android Pay e algumas novidades do Android M, como o novo copiar/colar, melhoria no controle de notificações e algumas outras iniciativas que indicam que o Android está agora copiando o iOS. Pessoalmente nunca vi problemas nessa prática da Apple e Google. Ao contrário, acredito que quanto mais os dois sistemas se parecerem, tanto melhor para os usuários finais. Aliás, a argumentação principal do texto me parece ser outra. Segundo o appleinsider, mais da metade da receita com anúncios móveis do Google, vêm do iOS.

Google relies on iOS for more than half of its mobile ad revenues. That’s because iOS has attracted a valuable demographic of users, while Android hasn’t
appleinsider

No livro Marissa Mayer And The Fight To Save Yahoo, o autor Nicholas Carlson explica que apesar de quase todos na empresa (Google) usarem telefones Android, Marissa Mayer estava sempre preocupada com a qualidade dos aplicativos no iOS e por isso usava um iPhone. Ou seja, mais uma confirmação do que diz o appleinsider, o Google é em parte dependente dos usuários iOS. No Brasil isso não parece tão obvio por conta da constante rivalidade pregada por entusiastas e sites especializados, mas nos EUA, as propagandas de TV do Google são quase sempre focadas no serviço e aplicativos (universais) e não nos aparelhos.

O texto destaca também a fragmentação, que continua sendo um problema. Ao menos é o que mostra uma tabela incluída no artigo. E há ainda o que o foi chamado de perda de controle sobre a plataforma, com outras empresas criando suas própria variações de alguns serviços. Por exemplo, o sistema de pagamentos da Samsung. Enfim, sugerem que a estratégia de ser a plataforma mais popular está prejudicando o Android.

O que penso é um pouco diferente. O Google é grande demais para falhar como um todo no curto e médio prazos. Eles têm muito dinheiro e uma base enorme para experimentos gigantescos como o Google+ e o novo Google Photos e basta que uma ou outra iniciativa emplaquem para que a receita aumente ainda mais. O investimento feito na compra e inclusão de anúncios no YouTube é, em minha opinião, um exemplo muito claro dessa estratégia e em breve o Google Maps trará muita receita, se é que isso já não começou.

O problema que enxergo é outro. A empresa está atuando em diversos campos de batalha. Por exemplo, luta contra a Apple no mercado de telefonia móvel, enquanto enfrenta forte concorrência do Facebook nos anúncios direcionados. Além disso, a Apple começa a investir cada vez mais em mapas e creio que não há dúvidas, o Facebook tomou o espaço que um dia foi ocupado pelo sistema de mensagens Google Talk. E, como o Twitter, vem investindo cada vez mais em vídeos.

Seja qual for o resultado dessa batalha, acredito que o Android tem tido dois papeis muito importantes no mundo pós-iPhone: estimular a concorrência e popularização da tecnologia móvel. Logo nos primeiros minutos da Google I/O 2015, a imagem abaixo apareceu e me coloquei a filosofar. No artigo Mapas da Desigualdade já mostrei minha apreciação por esse tipo de representação gráfica e aqui vai mais uma reflexão.

Mas antes vamos entender as cores. Foi dito que os pontos iluminados representam aparelhos Android no mundo e a lógica é a seguinte: quando mais perto do azul, mais sofisticados são os aparelhos e o contrário é válido para o vermelho.

Com base em inúmeros artigos que leio sobre a penetração de celulares no mundo, pensei que veria um mar de pontos vermelhos no continente africano, mas tudo que vemos são pouquíssimas ilhas vermelhas e uma azul na África do Sul, claramente concentrada em Joanesburgo, Pretória e arredores.

Sempre fui conta a argumentação de que a tecnologia por si só resolve problemas, mas sempre acreditei que a telefonia móvel munida de Internet é uma importante fonte de informações e, portanto, uma ferramenta muito valiosa e poderosa. Espero que esse quadro mude, espero que junto a todas as iniciativas globais em favor da África, apareça uma que estimule, em paralelo, um aumento do número de aparelhos Android.

Verdade seja dita, sem aparelhos de baixo custo rodando iOS, o Android e as soluções gratuitas do Google me parecem ser as mais prováveis portas de acesso à informação em algumas partes do mundo.

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