Entenda porque o iPad Pro não substituirá meu notebook

O futuro do iPad Pro parece claro, substituir o computador. Será? Bom, ao menos foi o que Tim Cook insinuou recentemente.

— Por que alguém compraria um PC?
— Para muitos, o iPad Pro já é um substituto para o notebook ou desktop.

Note que ele até foi cuidadoso usando o termo “PC” na primeira afirmação, mas parece ter esquecido que a Apple também vende notebooks e desktops e resolveu bancar o político brasileiro explicando que estava se referindo apenas aos computadores da concorrência.

O que vejo é o seguinte, por mais que Cook desconverse, o iOS tende a substituir o OS X por ser um sistema moderno e adequado para telas touch e, além disso, tablets e telefones da Apple são muito mais populares que o Mac. Evidentemente, o mesmo raciocínio vale para a Alphabet e o dilema Android x Chrome OS.

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Jobs chegou a dizer algo como: “computadores sempre existirão, mas serão cada vez mais parecidos com caminhões”. Ou seja, serão usados para tarefas muito específicas. E na mesma entrevista, lembro dele também afirmando que os mais velhos, da era do computador — eu! —, serão os que terão mais dificuldade para compreender e aceitar isso.

A afirmação é clara e o rumo parece evidente, mas às vezes me pergunto: a Apple sabe mesmo o que está fazendo? Por exemplo, a ausência de uma tela touch no Mac é constantemente explicada pela dificuldade de usar o dedo em uma interface feita para a precisão do mouse. Concordo, mas não seria o caso de usar um argumento similar para o teclado externo do iPad Pro?

Há muita reclamação a respeito disso nos artigos que andei lendo. Mesmo considerando os novos atalhos de teclado no iOS, algumas tarefas precisam ser divididas entre teclar e estender a mão até a tela para concluir sua execução.

John Gruber, por exemplo, reclamou bastante disso. Felizmente a tela do Pro é grande o suficiente para deixarmos de lado o acessório. Mas não teria sido o caso da fantástica equipe da Apple ter encontrado uma integração melhor? Ou quem sabe modificar aos poucos a interface do OS X para interagir mais adequadamente com telas touch no futuro? Aliás, esse parecia ser o caminho que a empresa vinha seguindo no passo.

Acredito que todos aqueles que já experimentaram um teclado externo em um tablet para atividades longas sofrem com o problema. Usei um iPad de primeira geração para escrever boa parte do Organizando a vida com o Evernote, mas sem a ajuda de um mouse e trackpad, nunca me adaptei. O virtual em tela é mais eficiente para teclar e ao mesmo tempo acessar comandos.

Já reparou que o teclado externo do Pro não tem um trackpad e o do Surface tem? Ou seja, em modo tablet a solução adotada pela Microsoft foi usar a interface moderna do Windows 10. E em modo notebook, os tradicionais sistemas de entrada: teclado e trackpad. Me parece mais abrangente e inteligente para o momento de transição que estamos vivendo.

Tenho escutado debates em podcasts, assistido vídeos e venho lendo incontáveis artigos a respeito do iPad Pro. Quase todos podem ser resumidos da seguinte forma:

  • É um equipamento muito poderoso e de altíssimo nível.
  • Não é um substituto para o notebook.

Nenhuma das duas afirmações me surpreende. Os produtos Apple são realmente de outro planeta. A qualidade e atenção aos detalhes são características únicas. Por outro lado, transformar o iPad em uma super-máquina e incluir um teclado e caneta, definitivamente não fazem dele um substituto para o notebook!

Minha opinião a respeito do produto é a seguinte: a Apple entregou um iPad mais poderoso que alguns de seus computadores e espera que os desenvolvedores façam a parte deles, o transformando em um verdadeiro substituto para nossos computadores. Inclusive o Mac!

Só que existem dois problemas nessa estratégia:

  1. Onde estão os Apps poderosos como o Pixelmator? Os primeiros iPads já eram equipamentos robustos o suficiente para muitas atividades e nunca se popularizaram como verdadeiros substitutos. E lembre-se, teclados e canetas (mais simples) existem há bastante tempo. Às vezes acho que nem os desenvolvedores acreditam no potencial de substituto porque, no geral, o que vejo são aplicativos incompletos e por isso nunca consegui realizar tudo que preciso usando apenas um iPad. As limitações aparecem a todo momento. E exemplos vem de casa também. O iMovie para iOS, por exemplo, apesar de incrível, tem algumas simplificações que não precisariam existir. O mesmo vale para o GarageBand, pacote iWork e assim por diante.
  2. A cada lançamento da empresa, fica muito claro que estão seguindo um plano de longo prazo, mas será que a Apple lembra que não vivem isolados no mercado? A concorrência vem lançando produtos e serviços cada vez melhores e tem ficado cada vez mais claro que o pano da Apple nem sempre traz a melhor solução para o momento.

Não sei quem teve a ideia primeiro, mas é evidente que Apple, Google e Microsoft têm como objetivo a mesma linha de chegada: o mercado de tablets e telefones! É como se estivessem em um jogo de tabuleiro. Avance três casas, fique sem jogar uma rodada, sorte ou azar nos dados e assim por diante. Ou seja, cada uma delas mostra as forças e fraquezas perante as demais a cada novo produto ou serviço lançado.

Porém, o que enxergo neste momento é uma Microsoft que entendeu que o mundo atual ainda é habitado por três tipos de criaturas: os que usam o computador (desktop ou notebook); os que usam tablets e/ou telefones e, principalmente, os que orbitam entre esses dois mundos.

Não me interessam as razões de cada um porque são inúmeras: condição financeira, mobilidade, tamanho de tela, crença ou que quer que seja. O fato é que os usuários estão divididos entre esses três mundos e existem vantagens e desvantagem em cada um deles.

Windows Mobile

Windows Mobile

A Microsoft, que ficou muito tempo patinando na linha de largada, resolveu recuperar o tempo perdido com uma solução focada nos três de uma só vez.

No princípio a estratégia parecia uma aberração da época do menu Iniciar nos antigos telefones da empresa, mas com o Windows 10 entendemos que ele foi pensado para atender as três situações com diversas soluções específicas e interessantes, dentre as quais, os novos Lumia 950 e 950 XL.

Ironicamente, o próprio Windows, que se desgastou muito ao longo dos anos, pode ser o principal vilão dessa estratégia. Um exemplo é o Surface. Considero o conceito interessantíssimo, mas não me sinto tentado a comprá-lo por conta do histórico de problemas do sistema operacional.

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O que tenho lido é que o sistema ainda está longe da perfeição mas tende a evoluir tecnicamente por debaixo do capô, mantendo-se a interface atual. Além disso, penso que os lançamentos recentes da empresa chegaram na hora certa. Estamos vivendo uma transição para um mundo de computação em tela, mas ainda é uma transição!

A Microsoft entendeu isso e está entregando híbridos que atendem as necessidades atuais de mobilidade e integração, enquanto vai preparando o terreno para evoluir tecnicamente. Na outra ponta, Apple e Google apostam em dispositivos específicos agora para possivelmente entregar um pacote completo no futuro.

Resta saber se o consumidor escolherá a paciência de acompanhar a evolução das coisas até lá ou vai tirar proveito do conjunto completo e tecnicamente razoável que pode ter em mãos neste momento.